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segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Noite em que Zico jogou com a Nove


Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!



Texto escrito, quando o Maracanã estava em obras para a Copa, para ser publicado em um livro sobre um jogo inesquecível no nosso Templo Sagrado, que infelizmente não chegou a ser lançado.

Publico hoje em homenagem às lindas imagens transmitidas para o mundo inteiro na final da Copa do Mundo, na expectativa de que ele volte a ser da torcida rubro-negra, como já aconteceu após a reforma, na Copa do Brasil do ano passado.




Estávamos em 1979. Seria um jogo especial. O Flamengo enfrentaria o Atlético MG numa prévia do que se tornaria em pouco tempo o grande confronto nacional. Esse se tratava de um amistoso beneficente, em favor das vítimas de uma enchente ocorrida em Minas Gerais e com um atrativo especial: Pelé jogaria pelo Flamengo. Com a camisa 10!

Até então, só tinha tido a oportunidade de ver jogos contra times pequenos. Como esse jogo ocorreu numa sexta à noite, meu saudoso pai me prometeu que viríamos ao Rio assisti-lo (morava em Petrópolis na ocasião). Fiquei eufórico!

Acordei cheio de expectativas e ansioso porque a aula não acabava. Viemos ao Rio logo depois do almoço. Ficamos na casa de uma tia em Copacabana, onde eu viria a morar anos depois já na faculdade.

Deu tempo de dar um pulinho na praia, tomar um banho e vestir o uniforme completo. Manto sagrado, calção, meião e chuteiras.

- Está pronto para jogar? - perguntou Tio Eduardo
- Se alguém se machucar, ele entra - respondeu meu pai.

Ora, mas como ambos eram flamengo, sabiam exatamente que eu também jogaria. Só que ao invés da bola, usaria minha fé e minha voz nas arquibancadas e, no meu mundo infantil, a roupa era essencial para fazer parte do espetáculo.

Descemos e ficamos esperando um táxi. Estava tudo engarrafado e comecei a reclamar que perderíamos o jogo ao ver meu pai preocupado que nenhum "amarelinho" passava vazio.


De repente, parou um Opalão. Azul! O motorista perguntou se iríamos ao jogo e meu pai quis saber o preço. Lembro que houve uma negociação rápida. Ao entrarmos no carro e ver outras pessoas dentro, eu perguntei:

- Pai, isto é um táxi?
- Hoje é! - respondeu papai
- Logo vi que vocês iam ao jogo por causa da "fantasia" do menino - falou o motorista.

Pronto! Eu conhecia assim as dificuldades de transporte para se chegar ao estádio, a existência das "lotadas" e, destas, já não gostava! Um táxi que nem amarelo era, "rachado" por vários passageiros e com um motorista metido a engraçado. Onde já se viu chamarem meu uniforme de fantasia?

Chegamos! Estava em cima da hora. Dificuldade para entrar e um pequeno arrependimento do meu pai por ter me trazido para um jogo cheio (140mil pagantes, segundo ajuda do Google).

Subimos pela rampa superior. Ao nos aproximarmos, o som da torcida foi inesquecível. Esta sempre foi uma das melhores sensações do Maracanã. Ouvir o grito da massa rubro-negra e a vibração positiva antes mesmo de conseguir avistá-la. Era o recado aos visitantes: o estádio tinha dono! Impossível não se arrepiar.

Entramos pelo meio do campo mesmo. Fomos pedindo licença. A quantidade de gente me impressionava. Os times já estavam em campo, mas eu olhava mais para a torcida. Meu pai me puxava, pois eu chegava a ficar paralisado olhando para as arquibancadas cheias, as bandeiras tremulando e tentando entender os gritos de guerra.
- Mengooooo! - eu gritava sem parar e pensava no porquê de não ter sido trazido a um jogo cheio até então. Aquilo ali é que era o Flamengo, eu pensava!

Conseguimos um lugar. O jogo já iria começar. Iria ver Pelé jogar e quem sabe confirmar finalmente tudo que meu pai falava dele. Mas, no caminho, diante de nova provocação do motorista de taxi, cheguei a afirmar que duvidava que ele pudesse ser melhor do que o Zico.

Meu pai me disse que o presidente e o governador estavam no estádio. Mas, eu não achei nada demais nisto. O que importava era que a Nação estava lá.

O Atlético marcou primeiro. Nem vi o lance direito, de tão concentrado na torcida que estava. E ao perguntar na inocência de um menino, tomava uma bronca do meu pai:
- Ué, gol do Atlético?
- Claro! Você não presta atenção no jogo. Pare de olhar a torcida e se concentre no que acontece em campo que vamos virar - numa superstição só aceitável por ele em jogos de futebol.

Mas, a mesma torcida já gritava e eu e meu pai acompanhávamos. Ainda no primeiro tempo, pênalti para o Flamengo. A expectativa era que Pelé bateria. Mas, quem pegou a bola foi o Galinho de Quintino. Goooooollllllll!

No intervalo, Pelé, fora de forma, foi substituído. Em campo, alguns belos toques e umas tabelas com Zico que fizeram meu pai dizer que lembravam a dupla que ele fazia com Coutinho no Santos.

No segundo-tempo, sem Pelé, o Flamengo parecia mais à vontade. Zico fez mais dois. Luizinho, que entrara no lugar do Atleta do Século, fez o quarto e Cláudio Adão definiu o placar: 5 x 1. Goleada histórica! Show de bola e uma inesquecível festa nas arquibancadas lotadas, ainda sem cadeiras e quaisquer divisões. Meus olhos brilhavam de orgulho. Orgulho de pertencer à Nação Rubro-Negra!

No dia seguinte meu tio ainda perguntou se gostei de Pelé.
- Gostei do Zico - respondi, não sem antes completar - e da festa da torcida!

O tempo passou e voltei muitas outras vezes ao Maracanã. Lá vibrei, comemorei, sorri, gargalhei, chorei, sofri, passei apertos e me emocionei com o espetáculo em campo e fora dele. Vi títulos heróicos conquistados na base da garra e também micos homéricos e derrotas sofridas. Enfim, no Macara, eu vivi!

Plagiando o poeta, ser rubro-negro é só se sentir em casa em meio à adorável desorganização do Maracanã.

Volte logo, velho companheiro! Estaremos prontos para lhe devolver a alma vermelha e preta, a alma popular!





 FLAmém!

sábado, 2 de novembro de 2013

#RIP LIMINHA - ADEUS, CARREGADOR DE PIANO

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!

Nesta sexta-feira, perdemos Liminha, vítima de uma infecção generalizada (septicemia). Herdeiro de uma galeria de jogadores que criaram grande identificação com a Maior e Melhor Torcida do Mundo, sem serem exatamente craques, mas por encarnar o Espírito Rubro-Negro, se desdobrando em campo.

Nascido na cidade de Tietê (SP), em 15 de junho de 1944, João Crevelim começou a carreira no Comercial de Tietê, chegando à equipe principal com 17 anos e participando da conquista da terceira divisão paulista em 1962.


Depois passou pelos modestos Corinthians de Presidente Prudente e Votuporanguense, onde, ao disputar a segunda divisão paulista, foi descoberto por um olheiro do Flamengo. Muitos afirmam que ele veio como contrapeso do habilidoso Cardosinho, que acabou ficando pouco tempo na Gávea.

Assim, sem alarde, Liminha chegou ao Flamengo no segundo semestre de 1968 e fez história. Segundo a Flapedia, ele atuou em 513 partidas e marcou 29 gols (foi o oitavo jogador que mais vestiu o Manto Sagrado).


Por jogar ao lado do Carlinhos, aquele mesmo que foi técnico de dois títulos brasileiros nossos e que tinha o apelido de Violino, por causa de sua reconhecida classe e do seu futebol refinado, Liminha foi chamado de Carregador de Piano (dando origem ao termo utilizado até hoje para identificar aqueles que trabalham duro para que outros possam brilhar). Também teve a alcunha de O Motorzinho da Gávea, recebida do saudoso radialista Waldir Amaral.


Segundo o pesquisador Marcelo Bebiano, Liminha teria feito uma promessa que, em caso de vitória sobre o Vice da Gama, voltaria a pé para a concentração do Flamengo. Conseguimos o resultado favorável e ele cumpriu a palavra, andando do Maracanã até São Conrado.

Ficou no Flamengo até 1975 e se transferiu para o Operário (MT), onde pendurou as chuteiras. Após se aposentar, Liminha voltou ao Flamengo como treinador da base.]


Descanse em Paz, Guerreiro Rubro-Negro, você que tanto honrou o Manto e que irá brilhar para sempre no alto do nosso Panteão Sagrado!


 FLAmém!