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quarta-feira, 17 de abril de 2013

100 DIAS QUE ABALARAM A NAÇÃO



Franklin D. Roosevelt assumiu a presidência dos Estados Unidos quando o PIB do país havia caído pela metade, 15 milhões de pessoas estavam desempregadas e a Bolsa de Valores havia encerrado suas atividades por tempo indeterminado, tudo por conta dos efeitos deletérios do crash de 1929, conhecido como a Grande Depressão. Hoje pode parecer ridículo, mas em 1933, data de sua posse, não havia certeza se o sistema econômico sobreviveria.

A história, a partir daí, é razoavelmente conhecida: Roosevelt implantou o regime do New Deal, a economia aprumou novamente e aqueles tempos sombrios serviram apenas de inspiração para uma penca de filmes hollywoodianos.

O que pouca gente sabe é que Roosevelt inaugurou um conceito que hoje é um lugar comum: a avaliação dos primeiros cem dias de governo. Tudo porque nesse exíguo tempo, FDR conseguiu com que o Congresso aprovasse 15 leis essenciais às reformas e injetou otimismo e confiança na população e nos agentes econômicos.

Em nossa visão, o Flamengo não estava, por óbvio, sob os efeitos de uma Grande Depressão, não era uma terra arrasada e de sobrevivência ameaçada. Contudo, lentamente caminhava para uma decadência que poderia roubar-lhe o protagonismo absoluto de maior clube do país. Já não era mais o clube de maior receita, sua maior conquista recente (o título de 2009) foi em grande medida obra do acaso, não tinha força esportiva consistente, não sabia agregar valor ao seu gigantesco potencial de marketing vindo da imensa torcida, perdia-se em questões menores da política interna.

O processo eleitoral de 2012 - do qual os autores se orgulham de terem contribuído ao incentivarem o debate em torno da inadiável necessidade de gerir o clube sob parâmetros de boa governança - resultou em ampla mobilização de rubro-negros, unindo sócios e torcedores em um apoio quase uníssono a um grupo que defendia a modernização do comando do clube.

Passados os primeiros 100 dias da presidência de Eduardo Bandeira de Mello, a Nação foi brindada com relatórios específicos das intervenções realizadas por cada uma das VPs do clube. Uma prática saudável e inédita, que merece demorados aplausos.

Ao longo desses 100 dias, nós publicamos vários textos com abordagens pontuais de atos da nova gestão, alguns com elogios entusiasmados, outros com críticas ácidas. Julgamos que é com independência que se deve analisar cada passo dado rumo à reconstrução do Mais Querido e que o confronto de ideias é absolutamente indispensável.

Em muitos pontos, concordamos profundamente com as escolhas feitas pelos atuais gestores. Em alguns outros, nem tanto. Esse é o debate que gostaríamos de propor. Vamos a ele:



Há, decerto, muitas coisas boas no Novo Flamengo, mas nenhuma delas supera a ótima surpresa que o acaso nos reservou: a liderança do Presidente Eduardo Bandeira de Mello.

Ser presidente de um clube de futebol potencializa a exposição de seu ocupante de forma inigualável., mas ser presidente do Flamengo é estar permanentemente na mira da curiosidade pública. Querem ver? Um bom indicador é o número de páginas indexadas pelo Google:
  • Graça Foster, presidente da maior empresa brasileira e que está no cargo há mais de 1 ano (e antes já havia sido presidente da BR Distribuidora e diretora da empresa), retorna 1.030.000 resultados;
  • Aldemir Bendine comanda, desde 2009, uma empresa com um patrimônio de mais de R$ 60 bilhões e lucros também na casa dos bilhões. A empresa dele é a 4a marca mais valiosa do país. Conhece o sujeito? Talvez não, afinal ele só é citado em 50 mil páginas na Internet, mas ele é o presidente do Banco do Brasil;
  • Fernando Haddad, prefeito de SP e ex-ministro da Educação , é citado em 963.000 páginas;
  • Mario Gobbi, que volta e meia vai aos jornais dizer que seu clube é o mais valioso do Brasil, com mais curtidores no Facebook, mais visualizações no You Tube e mais influência nas agências de publicidade, preside o Corinthians desde fevereiro de 2012, retornando 1.450.000 resultados, incluindo os dos tempos em que era diretor de futebol.

Pois Bandeira de Mello, com apenas 100 dias de gestão e um ilustre desconhecido até novembro passado, já retorna 1.620.000 resultados. Em se tratando de gente no exercício de suas funções, o Google registra poucas pessoas à frente de EBM, como a Presidenta Dilma Roussef e o presidente do Congresso, Renan Calheiros (sim, Joaquim Barbosa, mesmo com toda a fama do Mensalão, está atrás). EBM é um dos brasileiros mais vigiados do país e o que tem a maior relação entre menção em artigos x tempo no cargo.

Tudo isso deveria mexer com a cabeça do sujeito. É natural que a pessoa perca o eixo, fale mais que devia, se deslumbre com os holofotes, goste de aparecer. Outros colegas seus no conselho de gestão rubro-negro volta e meia se excedem nas entrevistas, prometem o que não devem, dão declarações polêmicas.

Já Bandeira de Mello não. Sempre sereno, sempre equilibrado, se comporta diante da imprensa esportiva com a mesma fleuma de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve. Não fez uma promessa. Não disse uma bravata. Não foi arrogante, prepotente, belicoso. Realmente, parece viver em um mundo totalmente estranho ao que se vê com habitualidade no futebol.

O melhor é que dentro de um clube 100% profissionalizado (o que o Flamengo ainda não é), o perfil ideal do presidente eleito (portanto, "amador"), é exatamente este: discreto, sóbrio e deixando os executivos trabalharem sem interferir no cotidiano. Curiosamente, de todos os que chegaram ao Conselho Gestor, EBM - que se não fosse o episódio da impugnação da candidatura Wallim Vasconcellos talvez sequer estivesse na diretoria - é, de longe, o que melhor se encaixa na função.

Principalmente por ter uma aura de homem comum, de gente que não se envolve em politicagem, de quem só quer fazer seu trabalho. E também por não ostentar um ranço elitista que volta e meia escapa em declarações impensadas de seus colegas de sangue azul, o que faz do presidente a encarnação da alma rubro-negra na diretoria.

Que siga assim por todos os seus 3 anos. Ou quiçá 6!




A melhor demonstração pública da mudança de atitude no Departamento de Futebol vem do relatório de 100 dias apresentado por sua vice-presidência: sem rodeios, Wallim Vasconcellos admite que o desempenho recente do time foi "pífio e inaceitável", prometendo que tomará medidas para que isso não volte a acontecer".

O comportamento padrão do dirigente em tempos de insucesso é procurar bodes expiatórios que possam ser acusados pelo fracasso - como antecessores no cargo, arbitragem, gramado e afins. A sinceridade de Wallim sinaliza que os tempos realmente são outros. Aprender com os erros é a melhor forma de evoluir em busca de um êxito perene.

Apesar dessa esperança renovada, acreditamos que a condução do futebol nesse início ficou aquém do que se esperava.

O conceito de profissionalismo que defendemos pressupõe a delegação integral do poder decisório ao executivo contratado, mas não parece ser isso o que está acontecendo no Flamengo.

O VP nomeado, representando o Conselho Gestor, dá seguidas entrevistas sobre montagem do elenco e chegou a comparecer ao CT para cobrar o elenco. Isso deixa dúvidas sobre quem realmente comanda o departamento: o diretor contratado não parece ter a mesma autonomia que, por exemplo, José Carlos Brunoro tem no Palmeiras.

É compreensível que a diretoria possa hesitar se deve realmente implantar um profissionalismo radical e definitivo no departamento mais sensível logo de início. Ocorre que é justamente ali que se deve evitar que a diretoria eleita interfira, para que as emoções naturais do coração torcedor não contaminem a tomada de decisão.

Em nossa visão, o profissional contratado, estava longe de ser a melhor opção disponível para ocupar o cargo. Em seu relatório, Wallim Vasconcellos fez questão de destacar que Pelaipe seria um profissional com 35 anos de experiência em vários clubes, sendo os últimos Corinthians e Grêmio. Infelizmente, não é bem assim.

Paulo Pelaipe foi, a vida inteira, ligado ao Grêmio, como torcedor e associado. Chegou à direção de futebol apenas em meados da década passada e de lá saiu em abril/2008. Logo depois foi contratado pelo Fortaleza, onde teve uma curta passagem, entrando em janeiro e saindo em março de 2009. Voltou ao Grêmio em agosto de 2011 e de lá saiu no fim do ano passado, com a mudança da diretoria. Ele esteve no Corinthians? Bom, não há registros conhecidos de sua presença por lá, nem ele nunca comentou o fato em suas muitas entrevistas. Se esteve, não ocupou nenhum cargo de destaque

Portanto, tirando a experiência do Fortaleza (cuja breve passagem ficou marcada por contratações questionáveis, dentre as quais Rodrigo Mendes, aquele mesmo), a carreira de Pelaipe como executivo profissional começou para valer no Flamengo. Daí a nossa reserva inicial quando de seu anúncio, uma vez que a torcida era por alguém com uma bagagem mais robusta.

Apesar disso, é necessário reconhecer que Pelaipe tem sido um dirigente com atitudes bem mais adequadas do que em seus tempos de Grêmio, quando era conhecido pela impetuosidade e excessos verbais (tanto que chegou a ser preso no Engenhão acusado de ofender um segurança do Flamengo com expressões racistas). O Pelaipe atual é discreto, solícito nas entrevistas, sereno nas declarações.

Dentre outros feitos, Pelaipe foi responsável, a nosso ver, por uma medida decisiva para o futuro do Flamengo: a montagem de uma área de acompanhamento de atletas e desempenho de adversários, a cargo de Rafael Vieira, que veio da CBF (e antes tinha passado por Corinthians e Grêmio, sempre acompanhando Mano Menezes).

A partir de uma extensa base de dados digital, com informações sobre atletas do mundo inteiro, a decisão de contratar um jogador tende a ser mais "científica". Em paralelo, o setor ainda municia a comissão técnica com informações sobre padrões de comportamento dos times adversários, para auxiliar no desenho tático de cada partida.

É intrigante que uma intervenção tão notável não tenha sido mencionada pela VP de Futebol no relatório de suas realizações. Provavelmente porque é um trabalho silencioso, que só rende resultados em médio prazo, mas sobre o qual vale o registro, dado que acreditamos muito nas suas contribuições ao clube.

A parte mais crítica desses 100 dias tem a ver com a montagem do elenco. De um modo geral, a análise padrão tende a creditar o mau desempenho do time na 2a metade do campeonato carioca a um esforço de contenção de despesas, que impediria a contratação de estrelas.

Discordamos dessa análise.

O Flamengo projetou um orçamento para o seu departamento de futebol de R$ 97 milhões - grosso modo, pouco mais de R$ 8 milhões por mês. Esse orçamento posiciona o time entre as 10 maiores folhas de pagamento do país.

Em que pese a herança de contratos de atletas com alta remuneração vindos da antiga gestão (casos, por exemplo, de Ibson e Alex Silva), a nova direção, segundo informações publicadas pela imprensa, estaria gastando R$ 1,25 milhão com apenas 5 atletas, contratados ou com contrato renovado nesse primeiro trimestre: Carlos Eduardo, Elias, Gabriel, Renato Abreu e Hernane.

Portanto, nesses primeiros 100 dias a opção não foi por apostar em jovens promessas ou atletas desconhecidos. Ao contrário, a diretoria escolheu investir em jogadores que pudessem assumir a titularidade e dar uma resposta imediata. O drama é que esses atletas estão rendendo abaixo da expectativa e consumindo uma fatia significativa do orçamento.

Isso torna ainda mais crítica a decisão de novas contratações. Por um lado, o clube precisa se reforçar em muitas posições, para algumas sequer há reservas. Por outro, boa parte do orçamento para atrair jogadores de qualidade já foi comprometida com esses jogadores cujo rendimento não vem correspondendo. Logo, o clube precisará ser bem mais efetivo na contratação de novos jogadores e ser mais cauteloso na definição, fugindo de apostas altas em atletas de bom potencial e alta remuneração, para não repetir os erros de Carlos Eduardo e Elias, que ganham muito sem conseguir apresentar, ao menos até agora, uma performance consistente.

A substituição do treinador, muito criticada no que se refere ao timing de execução, nos pareceu uma decisão acertada da diretoria. Se o contrato previa uma redução substancial da multa rescisória a partir de março, esperar 2 meses era o que de melhor se podia fazer.

A contratação de Jorginho também tinha tudo para ser uma boa escolha. O início confuso e atabalhoado de Jorginho foi algo imprevisível e até inexplicável, mas, paciência, nada há para ser feito por agora. Desde que reconheça seus erros e corrija os rumos de seu trabalho, Jorginho tem tudo para melhorar e repetir, no Flamengo, seus acertos na Seleção e no Figueirense.

Noves fora os dissabores recentes, o que realmente anima a torcida é a disposição dos novos comandantes em acertar e de não colocar suas vaidades e interesses pessoais acima das demandas do clube. A confiança da torcida de que tudo vai dar certo é quase irrestrita e isso ajuda bastante.

Nossos votos são para que os desastres recentes não alterem absolutamente nada no propósito inicial. Passado o susto inicial pela contratação de Paulo Pelaipe, nosso desejo é para que ele permaneça e conquiste ainda mais autonomia, assumindo de vez o comando do departamento de forma plena. E que o clube siga firme em seu propósito de montar uma equipe de acordo com nossas possibilidades financeiras (que ainda são relativamente extensas), tendo mais precisão na hora de atrair novos talentos.



A área financeira talvez seja hoje a mais popular do clube. O descaso acumulado por sucessivas más-administrações (não apenas a tenebrosa gestão anterior) se reflete essencialmente nessa área e muitos dos executivos que formam a nova diretoria são oriundos, não por acaso, de atividades ligadas ao mundo das finanças.

Trata-se de uma atividade meio, mas de vital importância no sucesso de qualquer Organização. Sem a boa gestão dos recursos financeiros, todos os demais ficam comprometidos. No caso do Flamengo, finalmente torcedores e sócios parecem ter compreendido que devem ir além do imediatismo, pois são os principais responsáveis pelo clube que amam e nessa condição precisam olhar para o futuro da instituição.

A função básica de um administrador financeiro é a de analisar e garantir a solvência da instituição. Não foi à toa, que Rodrigo Tostes e sua equipe começaram o relato dos seus 100 dias à frente do Flamengo abordando a gestão do fluxo de caixa, que necessita de um controle eficaz. Não é algo simples. É preciso criar uma metodologia que reúna informações de diversas áreas, consolidando-as na forma de números e as analisando sob uma linha temporal, integrando-as com o orçamento e a contabilidade.

Este passo é um ponto de partida para qualquer outra ação. Não sabemos como era a gestão do fluxo de caixa no Flamengo antes deste ano e isto deveria estar detalhado no quadro encontrado, mas, pela descrição das realizações da VP de finanças, é possível identificar que, no mínimo, não atendia aos objetivos propostos.

A situação descrita também explica a austeridade inicial. Apenas 15% do orçamento estariam livres, ou seja, 1,25% para cada mês para cumprir todos os compromissos do clube. Em uma situação assim ou se fecha as portas ou se arregaça as mangas e parte para negociar com credores privados e verificar o que precisa ser feito em relação às dívidas vencidas com o governo. É preciso priorizar pagamentos, mas as penhoras que estavam acontecendo faziam com que essa importante decisão fosse tomada pelo Poder Judiciário.

Além disto, o noticiário nos informa que as estatais são prospectivos parceiros de marketing. Então, não havia alternativas. Era preciso tirar a CND e para isto quitar dívidas vencidas que não podem ser parceladas, como a de tributos passíveis de retenção na fonte ou referentes a descontos de terceiros, como são os incidentes sobre a folha de pagamento.

Decisão difícil, com conseqüências para a produção dentro de campo no curto prazo. No entanto, abriram mão dos resultados imediatos em busca de uma maior solidez, sendo firmes na execução pelo que temos tido notícias até o momento.

Além do governo, seria preciso equacionar prazos das demais dívidas, enquadrando-os conforme o fluxo de caixa do clube. Também não é fácil, mas com credores privados é possível negociar. Conforme relatório, R$ 45milhões foram renegociados com bancos.

Segundo auditoria da Ernst & Young, a dívida está em R$ 750 milhões ou mais de quatro vezes o faturamento do clube no último balanço publicado (2011). Além disto, uma notícia no blog Primeira Mão informava que grande parte do valor da alta soma que receberíamos da Rede Globo já havia sido adiantada ou dada como garantia de empréstimo:

"Nas reuniões de transição, a diretoria que toma posse dia 2 de janeiro foi informada de que só haverá R$ 8 milhões a receber. Inicialmente, o clube teria direito a R$ 78 milhões - excluindo as luvas que já foram antecipadas - mas a gestão de Patrícia Amorim comprometeu mais de 90% do valor."

Diante de um quadro como esse, não há mágica que não seja a de cortar despesas e procurar novas receitas. É preciso buscar o superávit primário para que haja dinheiro que possibilite o pagamento da dívida. Pelo relatório da área financeira, soubemos que houve cortes na própria carne. Ou seja, foram reduzidas despesas (45%) e o montante da folha de pagamento (26%) do próprio órgão. No entanto, não há qualquer informação sobre os valores anteriores, a base sobre a qual foram feitos os cortes.

Em relação ao aumento das receitas entendemos que ao invés de procurar a majoração de preços de ingressos afastando a torcida dos estádios e desvalorizando o espetáculo e a própria mística rubro-negra, o clube tem potencial para buscar novas fontes de receitas. Assim, discordamos da decisão tomada de aumentar o valor do ingresso naquele jogo da semifinal contra o Botafogo, que se mostrou ineficaz (uma vez que arrecadamos menos do que no jogo da fase de grupos) e perdemos uma ótima oportunidade de reaproximar o clube da sua torcida.

Também se mostrou sem vantagens do ponto de vista meramente financeiro, o aumento do valor dos títulos patrimoniais e proprietários. O Flamengo abriu mão de uma importante fonte de receita em um momento delicado.

Para o futuro, esperamos que sejam criadas regras rígidas (de preferência por meio de modificação estatutária) que possam garantir o equilíbrio financeiro-orçamentário e frear impulsividade de dirigentes sem compromissos com a solvência financeira da instituição:

  •  Fixação de uma meta de superávit primário e de um limite percentual da receita para gastos com folha de pagamento, incluindo a remuneração dos atletas e seus direitos de imagem;
  • Implantação de mecanismos de controle e de alertas para desequilíbrios orçamentário e financeiro;
  • Prestação de contas regular, periódica, transparente e amplamente divulgada no site do clube, com o devido destaque;
  • Proibição de obter empréstimos de longo prazo, incluindo antecipações de receita de forma direta ou indireta, para pagamento de despesas correntes;

Portanto, os 100 dias da nova equipe de finanças foram bastante promissores, com decisões difíceis sendo tomadas, cujos resultados poderão servir de alicerce para um clube financeiramente reestruturado, que poderá maximizar a satisfação de sócios e torcedores, fazendo do Flamengo uma instituição séria, sanada e com foco nos seus objetivos.



Consideramos que o maior salto dado pelo Flamengo nesses 100 dias vem da área de marketing, embora essa percepção não seja compartilhada por parte expressiva dos analistas, principalmente entre aqueles que olham a VP de Marketing como um vendedor de espaços publicitários, cuja medida do sucesso ou fracasso estaria na atração de patrocinadores.

O Flamengo andou mal em variados setores na última gestão, mas nenhum deles tinha um grau de precariedade semelhante ao marketing, que falhou em todas as suas responsabilidades. Era natural, portanto, esperar uma mudança brusca em pouco tempo, como de fato ocorreu.

Há que se reconhecer que os ventos andam soprando a favor. O Flamengo poderia ter assinado o contrato com a Adidas no ano passado, mas em sábia decisão os conselheiros do clube evitaram que o polpudo sinal pago pela fornecedora fosse usado da forma então corriqueira, como contratar estrelas cadentes.

Em paralelo, a Caixa Econômica Federal tomou a decisão estratégica de ser o maior patrocinador do futebol brasileiro e é provável que em pouco tempo firme uma parceria com o clube, algo que se tornou possível depois da regularização fiscal.

Independente desses agentes externos, o marketing do clube foi decisivo na elaboração de um plano de relacionamento - Nação Rubro-Negra - que pode representar uma geração de receitas constantes.

Como dissemos em artigos publicados na época do lançamento, o projeto implantado pelo Flamengo é genial e muito superior ao ofertado pelos demais clubes (quando analisado sob a ótica do clube, não pela do usuário).

A maioria dos programas de sócio-torcedor busca fisgar membros em troca de benefícios quase sempre relacionados à presença em estádio. Isso traz dois inconvenientes: a) a imensa maioria da torcida não frequenta estádios, logo os benefícios, que custam caro, não representam um pólo de atração; b) a lotação dos estádios representa um limite teórico dos participantes, fator de insatisfação dos que ficam preteridos em jogos mais disputados.

O Flamengo aposta em um público de renda mais alta, não necessariamente frequentador dos estádios e com vínculos sólidos inspirados apenas pela paixão. Como a margem de contribuição apropriada pelo clube será muito maior do que os dos concorrentes (porque a receita de bilheteria não foi comprometida), o Flamengo pode se dar ao luxo de ter uma quantidade menor de contribuintes e ainda assim lucrar mais.

A resposta dada pela torcida foi magnífica e em menos de 1 mês o clube já tinha associado ao Nação Rubro-Negra mais do que em todo o resto de sua história no seu quadro social convencional.

A partir da base de dados do Nação Rubro-Negra, aliada a outra (que se espera maior), do Cadastro Rubro-Negro, iniciativa lançada pouco antes, a VP de Marketing tem a possibilidade de realizar intervenções específicas para nichos muito particulares de torcedores. As primeiras iniciativas do Nação Rubro-Negra, envolvendo doação de ingressos e encontros com ídolos, sinalizam que esse caminho tende a ser explorado com mais frequência.





A área de Esportes Olímpicos chamou atenção da torcida e da mídia logo no início da gestão. Não por conquistas, mas por dispensas de atletas renomados (natação, ginástica artística e judô). Diante da grave crise financeira pela qual passa o clube, a decisão foi tomada sob a alegação de não mais desviar dinheiro do futebol. O caminho escolhido foi o de dar um passo atrás, para buscar o impulso e poder dar um salto adiante com sustentabilidade. Ainda é cedo para marcar uma posição aqui se a atitude foi correta ou não.

O quadro que encontraram conforme relatado foi de: modalidades deficitárias, atraso nas remunerações (contratos de imagem e ajuda de custo) e falta de patrocínios. Já no Remo, além dos mesmos problemas, também se relatou necessidade de reformulação profunda da Academia de Remo, gastos supérfluos e problemas organizacionais.

Nos 100 dias, o problema de atrasos remuneratório ainda não foi resolvido, tendo sido minimizado na VP de Olímpicos segundo a carta do Póvoa. Por outro lado, se anunciou melhorias nas instalações. Já nos demais esportes olímpicos, trouxeram um executivo com um histórico de sucesso (o Marcelo Vido) e ainda criaram uma estrutura de marketing para planejar ações somente para os olímpicos, o que é essencial se formos analisar cada modalidade como um centro de custo autônomo, que precisará ser auto sustentável.

Pelas metas estipuladas fica claro o direcionamento para o governo. Acreditamos que, pelo histórico e pela proximidade dos Jogos Olímpicos, o Flamengo terá sucesso na empreitada de fazer parcerias com estatais e/ou receber verbas públicas. Porém, entendemos que é uma dependência perigosa, que ao menos nas diretrizes deveriam anunciar a busca de parcerias privadas.

A promessa é de dias melhores a partir da reestruturação que deverá perdurar ao longo deste ano. Assim, nestes primeiros 100 dias nossa única certeza é a de que um novo modelo de gestão de Esportes Olímpicos está nascendo. Estamos na torcida para que dê certo.




O Flamengo parece ter andado mais em 100 dias do que em 100 meses. A exemplo de Franklin Delano Roosevelt, o que se nota de modo mais acentuado é uma injeção de ânimo e esperança em dias muito melhores.

A direção, claro, precisa evoluir, sobretudo aprendendo a lidar com a característica multifacetada da Nação, compreendendo que somos, antes de mais nada, um clube com sólida identificação popular, onde medidas com um tom elitizante precisam ser pensadas de forma a avaliar o impacto com os torcedores - não é razoável aumentar os ingressos para R$ 80,00 e logo em seguida declarar que eles ficarão ainda mais caros.

Um clube cidadão, financeiramente sustentável, resgatando sua imagem, atraindo novos contribuintes. Só falta ser vencedor. Esse dia chegará.


Walter Monteiro / JEFF (Jorge E F Farah)






sábado, 15 de setembro de 2012

O mal explicado convite para Marcos Braz e Andrade

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!


Se as informações noticiadas pelo Globo.com na reportagem acima forem confirmadas, trata-se de mais um grande escândalo da administração Patricia Amorim no Flamengo. 

O marido da presidente e Cacau Cotta, vice-presidente do Fla-Gávea, teriam supostamente convidado Marcos Braz para o cargo de VP do Futebol, com a condição de que ele abandonasse a disputa para concorrer a uma vaga de vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sob a desculpa da necessidade de trabalho em horário integral. Isto para um cargo não remunerado e que historicamente seus ocupantes sempre dividiram as respectivas responsabilidades com as suas atividades profissionais particulares.

Além disto, a notícia também nos traz a informação de que a mesma tática foi utilizada para seduzir o Andrade, também candidato a vereança carioca. A diferença é que ao nosso eterno camisa 6 foi oferecido um cargo remunerado, cujos vencimentos são superiores ao da vaga postulada no legislativo municipal.


A base eleitoral da Patricia Amorim sempre foi o Flamengo e os dois candidatos citados na reportagem disputarão votos no mesmo nicho eleitoral, dificultando sua eleição. Assim, dinheiro e poder do Clube teriam sido oferecidos com a finalidade de atender objetivos particulares da presidente?

FLAmém!

sábado, 1 de setembro de 2012

A QUESTÃO DA ELEGIBILIDADE DO WALLIM

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!

Wallim Vasconcelos, candidato à presidência do Flamengo e
Luiz Eduardo Baptista (BAP) coordenador da campanha
Na última terça-feira foi lançada oficialmente a candidatura do empresário Wallim Vasconcellos à presidência do Clube de Regatas do Flamengo. Acontecimento que mexeu com o panorama eleitoral do Mais Querido. Não era para menos. Trata-se de um grupo de bem-sucedidos executivos rubro-negros que dão esperanças a todos de finalmente vermos o Flamengo gerido sob regras empresariais. Na foto acima, Wallim discursa ao lado do BAP, coordenador de sua campanha.

Como membro-fundador da Revolução Rubro-Negra, fico orgulhoso de termos alcançado nosso principal objetivo, que era o de colocar na pauta eleitoral o tema da profissionalização da gestão do clube. O modelo de gestão amadora fracassou e o Flamengo, como carro-chefe do futebol brasileiro, precisa comandar o processo de profissionalização. Hoje todos os candidatos falam de alguma forma na profissionalização. Sucesso total! Agora resta saber quem poderá implantar o choque de gestão profissional e quem fica apenas no discurso.

A chapa Flamengo Campeão do Mundo, encabeçada pelo Wallim, promete "tornar o Flamengo o maior e melhor time de futebol das Américas e um dos cinco maiores do mundo, o melhor clube social e esportivo do Rio de Janeiro, o maior formador de atletas olímpicos e alcançar a excelência no remo" e, para isto, pretende adotar um novo modelo de gestão, totalmente profissionalizado, com executivos contratados, tendo as metas traçadas por um comitê formado pelo presidente e pelos vices. Ou seja, algo idêntico ao proposto pela Revolução Rubro-Negra meses antes. Ponto para um grupo de 43 torcedores (aos quais muitos outros se juntaram posteriormente) por terem dado o pontapé inicial, elaborando um plano para implantar um choque de gestão profissional no Flamengo.

Os nomes que acompanham o Wallim empolgam e dão credibilidade para que possamos ter esperança de vermos o Flamengo finalmente gerido de forma profissional. O candidato é atualmente dono de uma empresa que atua na área de finanças corporativas, a Iposeira, e foi diretor executivo do BNDES e do BNDESpar e membro do Conselho Administrativo da Vale do Rio Doce, entre outras experiências. Com ele estão: 
  1. Luiz Eduardo Baptista (presidente da Sky), 
  2. Gustavo Oliveira (Vice-Presidente da agência Giovanni+DraftFCB),
  3. Frederick Kachar (Diretor da Editora Globo),
  4. Davyd Zilbersztajn (ex-diretor geral da ANP e dono da DZ Negócios com Energia),
  5. Rodolfo Landim (presidente da YXC Óleo e Gás e dono da Maré Investimentos),
  6. Sérgio Brandão (presidente da G2/Brasil, que pertence ao maior grupo de comunicação do mundo, a WPP),  
  7. Flavio Godinho (braço direito do Eike Batista), 
  8. Carlos Langoni (ex-presidente do Banco Central do Brasil), 
  9. Rômulo de Mello Dias (presidente da Cielo), 
  10. Ruben Ósta (presidente da Visa/Brasil),  entre outros. 
Um time de primeira linha, sem dúvida!


No entanto, um tema apareceu nos debates rubro-negros de forma tão forte quanto o próprio lançamento dessa chapa: a condição de elegibilidade ou não do candidato. Afinal, Wallim Vasconcellos pode ou não ser candidato a presidente do Flamengo?

Não pretendo responder a essa pergunta, já que isto é função do Conselho de Administração do Flamengo, responsável por homologar as chapas dos candidatos aos cargos eletivos. Além disto, se colocarmos vários juristas para analisar a questão, há o risco de termos uma série de opiniões divergentes. Meu objetivo aqui é explicar o problema aos torcedores rubro-negros, já que os meios de comunicação vêm abordando o tema de form um tanto quanto superficial. 

O problema está relacionado à interpretação do estatuto do Flamengo. O Art. 153 trata das condições gerais para o exercício do direito de voto e estabelece, entre outras, que o sócio deverá:
"IV - ter mais de dois anos de vida associativa ininterrupta, se Proprietário, e três anos, se Patrimonial ou Contribuinte, contados da data de admissão;"
Já o Art. 154 estabelece as regras para alguém poder se candidatar a qualquer cargo eletivo no Flamengo e, entre elas, menciona que deve ter direito a voto (portanto estar enquadrado nas condições elencadas no artigo anterior) e:
"e) ter mais de cinco anos de vida associativa ininterrupta"

O estatuto do Flamengo é a Constituição do Clube e é quem determina
as regras para poder ser candidato ou eleitor no clube

Wallim se tornou sócio patrimonial do Flamengo na década de 70, quando muitos que estiverem lendo estas linhas ainda nem eram nascidos. Porém, em um determinado momento deixou de pagar. Eu mesmo já fui sócio patrimonial e também deixei de pagar por acreditar que não estava tendo retorno em relação ao dinheiro que investia, já que não frequentava a Gávea. Em 2010, ele resolveu voltar a vida associativa do Flamengo e adquiriu um título proprietário. Porém, em 2011, a atual diretoria resolveu conceder uma anistia  irrestrita, segundo noticiário à época. Com isto, Wallim vai ao clube se informar e na sua carteira de sócio passa a constar que é sócio desde 1975, gerando condições para que possa lançar sua candidatura.

Mas, quem dera que as coisas fossem simples assim. Se observarmos o estatuto iremos observar que há uma diferença entre votar e ser votado que é a expressão "contados da data de admissão" que aparece no art 153 e não no 154 (releiam acima). A expressão não constar nas condições de elegibilidade faz com que surjam as seguintes indagações:
  1. apenas para votar o tempo irá retroagir até o momento em que a pessoa se tornou sócia do Flamengo? Assim, Wallim poderia votar, mas não ser votado?
  2. o legislador teria esquecido de colocar a mesma expressão  nos dois artigos, pois a principal regra para ser candidato é poder votar? Assim, Wallim teria totais condições de ser candidato?
  3. A anistia concedida teve caráter irrestrito. Isto significa que os sócios tiveram sua inadimplência perdoada sem qualquer restrição. Portanto, não haveria o que se falar em interrupção já que houve o perdão? Desta forma, Wallim seria sócio interrupto desde 1975, como aparece em seu documento oficial de sócio e teria preenchido as condições de elegibilidade?
  4. O estatuto fala em períodos ininterruptos, mas não diz que são os imediatamente anteriores ao pleito. Desta forma, poderia se entender que basta o sócio ter qualquer período de cinco anos sem interrupção para poder ser candidato? Ou seja, por esta interpretação Wallim também poderia ser presidente do Flamengo.
Os juristas e os Conselhos do Flamengo ainda deverão debater muito o assunto.  Como vêem as possibilidades de interpretação são muitas e uma delas é desfavorável ao Wallim. Quem tem ou não razão, veremos nos próximos capítulos. Só espero que a novela não seja longa e penosa ao Flamengo, com uma série de recursos, inclusive no judiciário e que a elegibilidade de um presidente do Flamengo não fique ao arbítrio de juízes, gerando uma instabilidade institucional, uma vez que liminares e decisões judiciais poderiam fazer o clube ficar mudando de presidente ao longo do mandato, sob risco até de anulação de atos. O clube deve estar acima de vaidades pessoais.

O que achou? Ainda ficou com alguma dúvida? Qual a sua opinião sobre a elegibilidade do Wallim Vasconcellos?

Enquanto comentam abaixo, assistam dois vídeos produzido pela @cidagomes sobre o assunto. Em um, quem fala é o Wallim e em outro o BAP.



FLAmém!

PS: Estamos em ano eleitoral e vamos escolher um candidato a prefeito e outro a vereador, que é o responsável pela criação das regras que regulam uma cidade. Daí a importância de analisar bem e escolher com critérios em quem irá votar para vereador para que confusões como esta não atrapalhem o seu dia-adia.

PS2: A anistia foi concedida por uma atual vereadora e candidata a reeleição. Se fosse alguém com mais zelo da condução de seus atos não teria definido mais claramente o que abrangeria e o que não abrangeria o o perdão? Será que Patricia Amorim merece seu voto para vereador?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fim do primeiro-turno: o que a história tem a nos dizer?

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!


O brasileirão chegou a sua metade. É hora de fazer as contas! O campeonato por pontos corridos começou em 2003, porém o atual formato com 20 clubes teve início em 2006. Assim, que tal compararmos a atual edição com as últimas seis? 



A tabela e o gráfico acima demonstram a campanha dos campeões simbólicos do primeiro-turno. Como se observa, jamais alguém tinha atingido a pontuação que o Atlético-MG, mesmo com um jogo a menos, conseguiu em 2012. O número de vitórias do Galo Mineiro realmente surpreende.


Apenas em duas edições, o vencedor do turno não levou também o campeonato. A primeira vez foi em 2008, quando o São Paulo, que havia chegado em quarto lugar, ultrapassou o Grêmio e se sagrou campeão pela terceira vez consecutiva. A segunda, foi em 2009, quando outro gaúcho, o Inter foi batido pelo Flamengo (que tinha ficado na 7ª colocação na primeira fase). A figura acima demonstra o desempenho do campeão brasileiro no primeiro turno, onde se pode observar que o Flamengo em 2009, conseguiu ser campeão brasileiro tendo tido até a 19ª rodada um aproveitamento inferior a 51%, algo próximo ao Botafogo nesta temporada. Vale observar que se o próprio Flamengo vencer o jogo atrasado contra o atual líder, atinge os mesmos 29 pontos de 2009.


Por falar no Flamengo, a comparação da campanha atual com a dos anos anteriores mantém a esperança de que o time possa disputar na parte de cima da tabela. Afinal, estamos com aproveitamento bem semelhante ao dos anos em que demos a arrancada no segundo-turno: 2007 e 2009. O otimismo se justifica ainda mais pelo fato de termos começado muito mal o campeonato e só acertado o time há 5 rodadas. Mas, até onde podemos sonhar?


Para o Título:
A pontuação média de um campeão brasileiro é de 73 pontos. Ou seja, em 20 jogos precisaríamos de mais 47 pontos. Portanto, para atingir esta marca, teríamos que fazer um segundo turno igual ao Atl-MG, o que convenhamos é bastante improvável.

Para a Libertadores:
A média de pontos do quarto lugar do brasileiro é de 63 pontos, o que nos obrigaria a fazer mais 37 no segundo-turno (como ainda temos 20 jogos a disputar, precisaríamos de um aproveitamento semelhante ao que o Vasco teve na primeira fase). Sendo que já teve clube se classificando para a Libertadores com 61 pontos, como também teve edição que um clube não se classificou com 64. Assim, teríamos que fazer de 35 a 39 pontos na segunda-fase.


Para evitar o rebaixamento:
A queda para segunda divisão era a preocupação de muitos rubro-negros quando o campeonato começou e o receio foi aumentando à medida que o time, então dirigido pelo Joel, não convencia. Bem, já teve edição que com 32 pontos um clube conseguiria se livrar do rebaixamento. Mas, aqui é preciso ser conservador e garantir os 45 pontos, que significam mais 19 ou uma campanha semelhante a que o Curitiba fez até agora.

Conclusão
Com esperança renovada pelas últimas atuações do time, tendo o Dorival conseguido dar um padrão e acertar a defesa, acredito que o pessimismo diminuiu. O rebaixamento, que nunca acreditei ser possível, só aconteceria se tudo desandasse no segundo-turno.  O mais provável é que a gente fique no meio da tabela, mas os números mostram que a Libertadores é um sonho difícil, mas possível. O título já seria algo bem menos provável, mas se fosse para ser fácil não seria para o Flamengo, não é mesmo?

E você, qual a sua expectativa? Até onde acha que poderemos chegar?


FLAmém!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

CLUBE AMADOR, GESTÃO PROFISSIONAL por Walter Monteiro

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!


No artigo que pode representar o encerramento da série de reflexões sobre o Flamengo, o Walter Monteiro nos fala mais sobre a necessidade da gestão de um clube ser profissional. Aproveito para desejar-lhe boa sorte no projeto de transformar o Flamengo no clube de seus sonhos. Será que o sonho que ele apresenta aqui também não seria seu, caro leitor?


Reflexões sobre o Flamengo 
Parte 5
CLUBE AMADOR
GESTÃO PROFISSIONAL


No artigo anterior eu chamara atenção para as desvantagens de se transformar o Flamengo em uma empresa comercial de capital aberto, mas concordava com o conceito de que o rigor exigido para a abertura do capital deveria servir de modelo para a gestão do CRF.

E, de fato, nada impede de que um clube ou qualquer outra entidade sem fins lucrativos empregue em sua administração as boas práticas de governança corporativa.

Aliás, exemplos não faltam. Vamos pegar o caso do Real Madrid. Pode ser que o leitor já tenha ouvido falar no lendário Florentino Perez, que dá entrevistas como presidente do clube e a quem se atribui a fase áurea do time, com a contratação de estrelas “galáticas”, como ele mesmo gosta de dizer.

Mas o fato é que o presidente manda muito pouco no Real Madrid. Para ser mais exato, ele e seus colegas de diretoria (“junta directiva”) sequer são identificados no organograma oficial do clube (clique na figura para ampliá-la):

Não quero insinuar que Florentino Perez seja uma figura decorativa. Mas, como estamos na Espanha e em um clube que homenageia a monarquia, vamos dizer que ele é uma espécie de Rei Juan Carlos. O rei espanhol é formalmente o chefe de estado e representa institucionalmente o país, inclusive cumprindo funções protocolares, como “editar” decretos e leis, mas todo mundo sabe que quem comanda a Espanha é Mariano Rajoy, que nós brasileiros chamamos de “primeiro-ministro”, mas os espanhóis chamam de Presidente del Gobierno.

O que o Real Madrid nos ensina é que a forma moderna de gerir um clube é transformar o presidente em um representante puramente institucional, mas delegar INTEIRAMENTE as decisões cotidianas a um grupo profissionalizado, qualificado e dignamente remunerado. Se alguém duvida que seja assim, recomendo que volte a ler o organograma, que fala por si só.

A pergunta que venho me fazendo há anos é qual a dificuldade de implantar um modelo assim no Flamengo. Há quem diga que o estatuto social não permitiria. Ledo engano: o estatuto, ao contrário, expressamente autoriza que o presidente possa se fazer representar por procuradores.

E, de mais a mais, não seria uma questão formal que atravancaria o progresso. Bastaria encontrar dirigentes que se conformassem com o seu papel puramente institucional e firmassem um pacto de se afastar de vez da gestão do Flamengo, delegando-a aos executivos contratados. Se há quem advogue que se faça isso através de uma S/A, qual o empecilho para agir do mesmo modo na instituição sem fins lucrativos?

O desafio central para os rubro-negros é convencer o quadro social a concordar que a gestão do clube seja comandada EXCLUSIVAMENTE por diretores executivos.

Há muita gente bem intencionada, preparada e até maravilhosamente qualificada que poderia, sim, assumir a direção do clube e, quem sabe, cumprir um mandato promissor. Mas a tendência, infelizmente, não é essa.

A experiência vem mostrando que mais cedo ou mais tarde, o lado torcedor do dirigente acaba falando mais alto e decisões são tomadas com base na impulsividade, na emoção e sem a devida reflexão. Por isso precisamos separar, definitivamente, a gestão e a paixão. Precisamos aposentar o modelo amador e reinventar o Flamengo, a partir de uma gestão profissional.

Eu tenho esse sonho. E vou persegui-lo.

Walter Monteiro
Embaixador Oficial do Flamengo no Rio Grande do Sul, sócio-proprietário do clube (mesmo morando em Porto Alegre) e escreve a coluna Bissexta no Blog Ouro de Tolo.

PS: Quando eu iniciei essa série de artigos, havia planejado escrever uns 15 artigos, tratando de temas variados sobre o futuro do Flamengo. Eu não estava envolvido com a política interna do clube, por isso me sentia à vontade para escrever livremente.

Mas a ótima repercussão desses textos ajudou a agregar mais gente comprometida em torno do mesmo ideal. Daí nasceu o movimento REVOLUÇÃO RUBRO-NEGRA, que pretende se apresentar às eleições em dezembro propondo exatamente isso que acabo de defender, um choque de gestão profissional, um profissionalismo radical.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Flamengo que não pode ser – e aquele que tudo poderá por Affonso Romero

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!

Dando continuidade aos artigos sobre gestão do Flamengo para debate e reflexão sobre que caminhos o clube poderá seguir, transcrevo abaixo um artigo de outro FLAmigo, o publicitário Affonso Romero Dantas. Acredito que daí poderá surgir o Flamengo com que todos sonhamos!


O Flamengo que não pode ser – e aquele que tudo poderá




Qualquer dos grandes clubes brasileiros deveria liderar uma revolução na gestão do nosso esporte. O Flamengo, como time de maior torcida, e maior marca esportiva do País, deveria ter esta transformação como missão obrigatória. Senão por motivo mais nobre, que seja para salvar a si mesmo.

Discute-se bastante a estrutura societária, a democratização do acesso ao voto nos clubes de massa, a transformação em clubes-empresas, a separação entre futebol e clubes sociais, a negociação das dívidas e várias questões que, a meu ver, deveriam ser subsidiárias a um tema mais importante: o modelo de gestão.

Pode-se encontrar, dentre os clubes de sucesso neste hoje mercado global do esporte, variados modelos societários: Milan, Chelsea e Manchester United têm um único controlador, o Barcelona tem dezenas de milhares de eleitores. Qual o modelo mais eficiente? Parece uma pergunta menor, uma vez que se chega ao sucesso por um ou outro caminho. Entretanto, nenhum destes grandes clubes tem uma forma amadora de gestão.

Alguns defensores do amadorismo vão lembrar, com boa parcela de razão, que os clubes brasileiros construíram uma bela história já centenária contando com a gestão abnegada de alguns seus sócios, eleitos para tal. A bem da verdade, durante décadas os grandes clubes europeus também trilharam esta estrada.

O que houve desde então foi uma mudança de paradigma. De duas a três décadas para cá, o esporte – notadamente o futebol – passou a contar com o aporte de recursos de outras vertentes da indústria do entretenimento, entre as quais os conglomerados de comunicação, as empresas fornecedoras de material esportivo e os grandes anunciantes, em meio a processo de crescente globalização.

Ora, o tipo de negócio em que os clubes se viram envolvidos passou a ser desenvolvido por partes desiguais: enquanto as empresas parceiras são representadas por profissionais altamente qualificados, a maioria dos clubes permaneceu representada por dirigentes amadores - com claro prejuízo para os clubes. Por outro lado, as cifras em tais negociações cresceram exponencialmente, sem que tenha havido um mínimo de racionalidade no uso desses recursos por parte dos clubes que não profissionalizaram sua equipe de gestores.

O resultado é um mercado atípico, em que houve uma transferência de ganhos maior à mão de obra do que aos empregadores. Isso se deve ao fato de que o valor médio pago a atletas e técnicos subiu mais do que os ganhos das instituições esportivas, movidos pela passionalidade de dirigentes e pela boa percepção de oportunidade por parte de representantes e empresários. O crescimento dos valores arrecadados, em lugar de aumentar as possibilidades de desenvolvimento destes clubes, ao contrário, provocou um mergulho na desordem financeira e uma situação geral de insolvência.

Enquanto isso, aqueles que deveriam ser os maiores ativos dos clubes - suas marcas e a relação institucional com as massas de torcedores que medem a sua grandeza - em vez de se incrementarem, deterioram. Some-se o crescimento de marcas esportivas estrangeiras e o avanço de outras facetas mais profissionalizadas da indústria do entretenimento para termos uma situação caótica aparentemente irreversível. Pelo menos, sem que haja uma nova mudança de paradigma.

Na coluna que publico na Internet (no blog Ouro de Tolo) eu já havia comentado os achincalhes que o Flamengo anda sofrendo sob o olhar passivo de sua atual Diretoria, até com a colaboração indireta dela. Naquele texto, um caso fortuito com o Diego Maurício, de importância menor, simbolizava o desleixo pela imagem do clube. Eu ainda elencava outros exemplos.

De lá para cá – e em tão curto tempo – o Flamengo colecionou outros descasos até maiores, como a lentidão em contratar um dirigente remunerado para futebol, a interferência sistemática de Vice-Presidentes uns nas áreas de atuação de outros, a declaração do não pagamento de impostos, a revelação de um balanço para lá de confuso e polêmico, a eliminação prematura em todas as competições do futebol no semestre, um período longo sem jogos e poucos treinamentos, a inação e o improviso na contratação de reforços, o debate público acerca de salários em atraso, além de intermináveis declarações oficiais inadequadas.

O Clube de Regatas do Flamengo, glória do esporte nacional, é vítima de um processo de encolhimento institucional (se existisse, a melhor palavra seria “apequenamento”) e exemplo daquilo que não deve ser feito na gestão de instituições congêneres. Vou evitar o lugar-comum da crítica fácil às pessoas que vêm dirigindo o clube nos últimos anos.

Conheço algumas delas, e dentre elas várias pessoas de bem, alguns inclusive muitíssimo bem sucedidos em suas vidas pessoais e profissionais.

Mesmo aqueles que têm experiência, conhecimento técnico e capacidade intelectual para atuar nas muitas atividades da gestão de um clube, costumam falhar quando fazem o papel do dirigente esportivo voluntário: misturam a paixão e a razão, o imediatismo e o necessário planejamento estratégico, o compromisso para com a instituição e as obrigações pessoais privadas, o administrador e o torcedor.

O Flamengo faz péssima gestão de sua marca, é comumente associado a escândalos, brigas internas políticas inócuas, desrespeito a hierarquias, processos confusos, contratos mal alinhavados e raramente cumpridos, um ambiente e uma cultura interna que, sinceramente, dificilmente poderia vir a atrair parceiros confiáveis e interessados na obtenção conjunta de resultados positivos numa relação estável e segura.

No momento em que começa a se desenhar o quadro eleitoral cujo desfecho se dará no final do ano, quando da eleição da Diretoria para o próximo triênio, vê-se candidatos divididos entre aqueles que pretendem perpetuarem-se num grupo de poder que se metamorfoseia para manter-se igual ou aqueles que se apresentam de forma novidadeira como representantes de uma pseudo-mudança, ainda que reproduzindo discursos, perfis e hábitos antigos.

Parece bastante claro que uma mudança passa, necessariamente, pela determinação em dar ao clube um choque de gestão profissional incondicional. Há, para a Diretoria eleita, um espaço político necessário e útil, qual fosse o respaldo institucional, o estabelecimento de metas, a contratação de uma equipe de gestores profissionais, a avaliação dos resultados obtidos em médio prazo e a validação ou redefinição das soluções adotadas, em períodos e ciclos pré-configurados.

Caberia à equipe de gestores profissionais tomar as decisões administrativas, decidir sobre cada uma das questões pertinentes às mais diversas atividades do clube, traçar planos executivos, preparar e gerir contratos, explorar oportunidades, negociar com atletas e seus representantes, valorizar a marca e otimizar todas as tarefas de gestão. Tudo isso com autonomia delegada e sob regras predeterminadas de governança corporativa, palavra chave neste novo momento.

O Flamengo estaria em conformidade com seu atual Estatuto, com a Diretoria eleita cumprindo sua missão de definir ONDE o clube deve chegar (objetivos) e um grupo de gestão profissional definindo COMO chegar (gestão) a tais metas, sob regras claras, sem sobressaltos ou interferências políticas cotidianas, com transparência de ação, num ambiente negocial de alto nível.

Este não é um caminho a ser adotado pelo Departamento de Futebol, nem por este ou aquele setor, mas pela instituição por inteiro, sob a liderança politica de um Presidente que tenha a grandeza de saber delegar a gestão cotidiana a um grupo de profissionais liderado por um CEO (ou outro nome que se queira dar ao cargo) com formação sólida, compromisso com o resultado, método administrativo, experiência em gestão de instituições de grande porte e uma equipe bem articulada. Ou seja: um choque de gestão profissional.

O problema real consiste em conciliar, num grupo a ser eleito para liderar esta revolução, paixão pelo Flamengo e a clara noção de que esta mesma paixão inviabiliza uma gestão racional. Conciliar conhecimento profundo da questão e humildade para abrir mão da gestão direta sobre os dilemas cotidianos.

A minha impressão pessoal é que ao cruzar as portas do clube, o torcedor-dirigente típico não se contém e se sente obrigado a interferir, participar, aparecer, falar além da conta – mesmo aqueles que antes se diziam comprometidos com a ideia de profissionalização. No fundo, o torcedor que habita em nós faz com que todos queiram “escalar o time” quando detém poder para tal.

O Presidente hipoteticamente ideal deveria ser “impedido” de entrar no clube, sentar à mesa, resolver qualquer assunto do dia-a-dia. Que dê as diretrizes, avalie e reconduza a médio prazo, mas não interfira na ação.

Este é o modelo ideal a meu ver. Já passou da hora de fazermos uma Revolução Rubro-Negra. Vamos a ela.

por Affonso Romero Dantas - publicitário e sócio-proprietário do Flamengo


FLAmém!

PS: Texto publicado originalmente no Blog Ouro de Tolo

terça-feira, 15 de maio de 2012

Reflexões sobre o Flamengo (parte 4) – CLUBE S/A E SUAS ILUSÕES. Por Walter Monteiro





Nove entre dez defensores de mudanças no comando do Flamengo anseiam pela transformação do clube em uma empresa, mais especificamente uma sociedade anônima. Exemplos europeus de sucesso dessa transformação alimentam as ilusões em torno do tema.

No caso específico do Flamengo, a criação de uma espécie de “Flamengo S/A” ou “Flamengo Futebol” (segundo alguns de seus partidários menos éticos) ainda teria o benefício adicional de congelar as dívidas acumuladas pelo clube na estrutura antiga, uma solução heterodoxa que dividisse o Flamengo entre a “banda boa” e a “banda podre”, deixando a imensa dívida como herança para os sócios.

Há uma diferença sensível de concepção entre um clube e uma S/A. O dirigente do clube deve satisfações ao universo de associados, uma massa disforme, onde cada membro tem rigorosamente o mesmo poder. Já o dirigente de uma S/A deve muito mais satisfações ao acionista controlador que à assembléia de acionistas.

O que parece escapar aos entusiastas dessa solução é que o ambiente econômico e regulatório do Brasil não é exatamente igual ao da Europa ou dos Estados Unidos (onde as franquias dos esportes locais também são empresas comerciais).

Estou convencido que uma sociedade anônima dedicada à gestão de práticas esportivas poderia se tornar uma presa fácil nas mãos de investidores do ramo. Não dá para descartar a possibilidade de que gente de elevado calibre como Eduardo Uram, Wagner Ribeiro ou até Ronaldo Fenômeno (arghhhh!) assumam o controle do Flamengo S/A e passem a ditar os seus rumos segundo suas próprias conveniências.

Aliás, até na Europa há exemplos de times cujo controle societário é transferido sem qualquer tipo de restrição, para gente de duvidosa reputação.

Mas enquanto na Europa o padrão dos aventureiros é injetar dinheiro de origem nebulosa em troca de prestígio para magnatas que não têm mais onde gastar, o investidor típico do futebol brasileiro é um negociante de atletas, com visão de retorno rápido do capital investido. Qualquer clube que se transforme em empresa será um chamariz para essa gente, que, na qualidade de acionista (ainda que não formalmente controlador) poderá se valer de mecanismos diversos para impor sua vontade.

O alerta vale mesmo para o caso de uma sociedade anônima onde o clube seja o controlador. Primeiro, porque a futura S/A teria de emitir ações em favor do clube e os desdobramentos a partir daí, inclusive quanto aos credores, passa a ser incerto. Segundo, porque o excesso de regulação jurídica no universo das S/A pode gerar empecilhos de toda sorte, em um modelo totalmente desconhecido. E terceiro, o mercado acionário brasileiro, que ainda é muito incipiente, vem se sofisticando a cada ano e não há como descartar, totalmente, a possibilidade de uma oferta hostil pela tomada do controle.

Portanto, longe de ser uma solução definitiva para os problemas de gerenciamento e financiamento, a transformação do Flamengo ou de parte dele em uma empresa pode ser, ao contrário, uma tremenda dor de cabeça.

Quero ainda lembrar que os clubes de futebol, por serem instituições sem fins lucrativos, sofrem uma tributação bem baixa – a maioria daqueles impostos que o Michel Levy, na maior cara de pau, diz que às vezes deixa de pagar “um imposto aqui, outro ali”, são tributos incidentes sobre a folha de pagamento, porque diretamente sobre a arrecadação do Flamengo a carga tributária seria de uns 4%, a julgar pelo Balanço Patrimonial.

Obviamente que o cenário fiscal se agravaria muito em uma sociedade anônima . Dá para especular que pelo menos uns 20% do faturamento iria parar nas mãos do fisco.

E os problemas não terminam por aí.

Quem defende a criação da S/A sequer cogita que o controle não fique nas mãos do CRF.

Sejamos realistas: o mercado, por si só, já seria refratário a um investimento em um segmento tão pouco rentável como o dos clubes de futebol, mas a situação seria ainda pior se o controle permanecesse nas mãos do clube. Afinal, o que atrai investidores de peso é justamente a possibilidade de exercer ou compartilhar o controle.

Para funcionar, teria que ser algo como uma "privatização", o Clube de Regatas do Flamengo abrindo mão para sempre de gerir a marca e o futebol, ficando apenas como detentor de uma 'golden share' para opinar em matérias chave. E seria difícil, muito difícil, convencer os sócios proprietários do clube a tomarem essa decisão.

Isso eu falo no plano teórico, apenas.

Porque, na prática, dado o mercado atual de investidores em futebol no Brasil, a opção seria temerária. Os investidores institucionais qualificados teriam empecilhos para participar do projeto, porque o rating da futura Fla S/A tende a ser baixo.

Quem nos restaria? O capital volátil e, sobretudo, os já citados investidores tradicionais do segmento - as Traffic e 9nes da vida. Todos com visão de curto prazo e baixo comprometimento institucional. Além de não serem nenhuma referência de ética e gestão.

Sem contar que a minha aposta é que logo após o IPO (a oferta pública inicial, que representa a abertura do capital em bolsa de valores) as ações sofreriam uma queda vertiginosa. Isso já é comum com empresas sólidas, imagina com uma empresa de futebol, cujo fluxo de caixa é diretamente influenciado pela incerteza dos resultados.

Isso traria um efeito colateral deletério. Quanto vale a marca Flamengo, cujo real valor hoje remanesce no imaginário intangível? Eu não sei, ninguém sabe. Mas no exato instante da criação da S/A ela teria que ser valorada, para poder fixar o preço das ações. Afinal, perdoem a linguagem um pouco mais hermética, o CRF vai integralizar o capital social da futura S/A com a sua marca, recebendo em troca as ações.

Que fique bem claro: se a marca do Flamengo hoje vale o infinito, no exato instante da criação da S/A ela passa a ter um valor definido, expresso em ações.

E se as ações caírem logo depois do IPO, a conclusão é simples: o mercado decretou que a marca Flamengo vale menos do que a gente imaginava. A recuperação pode ser lenta, ou talvez nem vir. Isso será desastroso para a captação de dinheiro no futuro.

Por isso, sou contra a criação da Fla S/A. É risco demais, só para nos livrarmos dos dirigentes de sempre. Há, por certo, caminhos mais rápidos e seguros.

Mas em um ponto eu concordo integralmente com quem defende a criação da S/A. O padrão de exigência necessário ao IPO deve ser implantado no clube com urgência. Princípios de Governança Corporativa, responsabilidade orçamentária e profissionalização da gestão são imprescindíveis em uma organização que arrecada mais de US$ 100 milhões/ano, com potencial para arrecadar ainda mais.

Isso é inadiável.

Mas eu acredito que há uma forma mais inteligente de se fazer isso sem correr os riscos de uma S/A. Volto ao tema no próximo artigo.

Walter Monteiro
Embaixador Oficial do Flamengo no Rio Grande do Sul, sócio-proprietário do clube (mesmo morando em Porto Alegre) e escreve a coluna Bissexta no Blog Ouro de Tolo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Reflexões sobre o Flamengo (Parte 3) SÓCIO OFF-RIO, O JEITINHO BRASILEIRO EM VERSÃO RUBRO-NEGRA por Walter Monteiro



Nos textos anteriores falei sobre projetos de sócio torcedor de um modo geral. No CRF, como se sabe, não há essa modalidade, nem se tem conhecimento de que se venha a criá-la em curto prazo. Em paralelo, há algo que guarda alguma semelhança com o sócio torcedor, que é o chamado sócio Off-Rio (ou contribuinte estadual, na definição apropriada).
  
Está lá na página oficial do clube para quem quiser ver. Quem mora a mais de 100 quilômetros do Rio de Janeiro (o site não deixa claro, mas presumo que seja a cidade) pode se tornar sócio pagando apenas R$ 40,00 por mês. Em troca, recebe uma carteira de sócio estadual, adquire o direito de frequentar o clube até 30 dias por ano, recebe publicações e informações sociais quando publicadas, participa de promoções e eventos quando forem promovidos. E, claro, a jóia da coroa: vota para Presidência e Conselhos, depois de cumprida a carência de 3 anos.
  
Há tempos eu vinha emitindo alguns alertas acerca da precariedade desses direitos de voto dos sócios Off-Rio, para os quais não há previsão estatutária, mas eu desisti de insistir no assunto. As reações dos meus interlocutores eram tão raivosas, tão fundamentalistas e tão enérgicas que eu me sentia tentando explicar a George Bush que talvez não houvesse armas químicas no Iraque. Desisti, cansei, deixa pra lá. Que fiquem todos confortáveis com suas crenças imutáveis.
  
Ou melhor, nem desisti tanto assim. Desisti de discutir, mas não de alimentar minhas dúvidas. Reuni o pacote de disposições do Estatuto Social do CRF que colocam em xeque a validade do sócio Off-Rio e encaminhei uma consulta oficial ao Conselho Deliberativo do clube, que a submeteu a uma comissão de juristas. Até agora desconheço o que dirá tal comissão, só torço para que digam que sim, que os Off-Rio possuem direito de voto. Isso trará paz para muitos.
   
O que me incomoda mais nessa temática do Off-Rio é que os defensores mais ardorosos de uma campanha associativa não são sócios dessa modalidade. São, quase sempre, sócios e torcedores cariocas, que olham para o Off-Rio como uma alternativa adaptada de um projeto de sócio torcedor.
   
O raciocínio é simples: ser sócio do Flamengo não é muito barato e para quem não mora nas imediações da Gávea frequentar o clube é algo fora de cogitação. Isso torna difícil convencer torcedores a pagar R$ 105,00 por mês para usufruir bem pouco da instalações. Entretanto, R$ 40,00 soa mais palatável, se encaixa melhor no orçamento dos torcedores, pois, afinal, esse é um valor aproximado do que cobram os programas de sócio torcedor comercializados por clubes rivais, como vimos no artigo anterior.
   
É daí que surge essa fixação - de gente bem intencionada, em sua maioria, faço essa ressalva – de concentrar os esforços de campanhas de associação em sócios de outros estados. É um modo bem brasileiro de lidar com as dificuldades: já que não há sócio torcedor à disposição, vamos aproveitar essa brecha do Off-Rio e aumentar o colégio eleitoral por essa via.

Não condeno quem o faça. Se a possibilidade existe, se as pessoas realmente acreditam que é aumentando o colégio eleitoral que se mudará o clube, que sigam em frente.

O que parece fora de questão é perguntar aos sócios de fora do Rio de Janeiro quais são, antes de mais nada, as suas reais necessidades. Eu mesmo, que morei a minha vida inteira no Rio antes de me mudar para Porto Alegre em 2007, não imaginava que a vida rubro-negra fosse tão difícil fora da Cidade Maravilhosa.

O torcedor Off-Rio, para começo de conversa, tem dificuldade de torcer. Sabe aquele domingão que tem um clássico Flamengo x Vasco pelo Carioca? Em Porto Alegre a TV mostra Grêmio x Ypiranga. Sabe o jogo de meio de semana pela Copa do Brasil contra o Horizonte? Em Curitiba o Sportv passa Atlético PR x Ipatinga. Sabe o jogo de estreia na fase de grupos da Libertadores que vai passar na Globo? Na Globo de Salvador vai passar Vitória x Itabuna.

Pensa que a vida melhora quando chega o Brasileirão? Engano seu. Quem mandou Flamengo x Palmeiras ser às 16h, mesmo horário de Portuguesa x Atlético MG? O flamenguista de Belo Horizonte vai ter que se contentar com o jogo do Galo.

Então, para quem mora fora do Rio, ou bem assina o PFC, ou ver o Flamengo passa a ser algo bissexto. Ou seja, lá se vão mais de R$ 60,00 por mês. E isso nem sempre resolve o problema....porque sabe aquele dia que a partida coincide com um compromisso qualquer e o torcedor carioca vai ouvindo o jogo no rádio do carro ou do celular? Pois é, quando isso acontece comigo, eu preciso me contentar com o jogo do Inter.

E até agora só falei de jogos pela TV. Porque quando se trata de jogos no estádio, aí mesmo é que o torcedor Off-Rio come o pão que o diabo amassou. Vou contar um caso real, relativamente recente.

Em 2010 o Flamengo jogou as Oitavas de Final da Libertadores no Pacaembu, contra o Corinthians. Sabem onde os sócios Off-Rio de São Paulo assistiram a partida? Em casa. Sim, os sócios Off-Rio foram obrigados a ficar em casa. Para facilitar o deslocamento dos torcedores cariocas, o Flamengo fez o favor de comprar antecipadamente toda a carga de ingressos visitantes e vendê-la na Gávea.

Esse episódio do jogo do Corinthians ilustra uma diferença marcante entre os sócios regulares e os sócios Off-Rio: o acesso privilegiado e antecipado à compra de ingressos. Sócio do Flamengo nunca fica de fora de jogo importante, nem passa aperto para comprar ingresso: basta ir na sede da Gávea e acessar a bilheteria exclusiva, que fica lá dentro do clube, ao lado da secretaria.

Além disso, lá na Gávea também vende toda a linha oficial de produtos do clube com descontos para os sócios. E quando há eventos, o sócio sempre é convidado a participar.

Digo essas coisas para evidenciar um aspecto que geralmente passa despercebido: mesmo para quem não frequenta a sede, o Flamengo oferece aos seus sócios cariocas alguns benefícios palpáveis e reais, em especial o mais relevante deles, que é a exclusividade na compra de ingressos.

Já para os Off-Rio, sejamos francos, a única coisa que o clube oferece em troca é um boleto de cobrança mensal. Nem a revistinha bimensal costuma chegar – desde 2009, só recebi 3.

E, sim, a chance de votar 3 anos depois de se associar. Desde que, claro, o sócio esteja disposto a faltar o trabalho e investir algumas centenas de reais no seu deslocamento até ao clube, pois não há votos on line ou por correspondência (e nem haverá enquanto não se mudar o estatuto, que expressamente prevê votação por envelopes nas urnas).

Portanto, a todos os que se enchem de esperanças de encontrarem hordas de sócios ávidos por doar R$ 480,00 por ano ao CRF apenas para figurarem na lista de eleitores em 2015, fica aqui meu conselho: não confundam o atual sócio Off-Rio com um projeto de sócio torcedor meio capenga. Ele é muito pior do que isso, é uma extorsão apelativa à paixão genuína da Nação.

Se realmente vocês estão empenhados em encontrar mais sócios a curto prazo, fixem-se na turma do Rio de Janeiro mesmo. Pelo menos para esses ainda se pode acenar com contrapartidas tangíveis. Nem que seja trocar a mensalidade do PFC pela do clube e assistir as partidas em um dos muitos bares que as transmitem. Porque, acreditem, até isso não é simples fora do Rio de Janeiro.


Walter Monteiro - Embaixador Oficial do Flamengo no Rio Grande do Sul, sócio-proprietário do clube (mesmo morando em Porto Alegre) e escreve a coluna Bissexta no Blog Ouro de Tolo.

PS: Para reler:
  1. O primeiro artigo da série: Sócio Torcedor, Mitos e Crenças
  2. O segundo artigo da série:  Ainda o sócio Torcedor, Seus Mitos e Suas Crenças