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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Reflexões sobre o Flamengo (Parte 3) SÓCIO OFF-RIO, O JEITINHO BRASILEIRO EM VERSÃO RUBRO-NEGRA por Walter Monteiro



Nos textos anteriores falei sobre projetos de sócio torcedor de um modo geral. No CRF, como se sabe, não há essa modalidade, nem se tem conhecimento de que se venha a criá-la em curto prazo. Em paralelo, há algo que guarda alguma semelhança com o sócio torcedor, que é o chamado sócio Off-Rio (ou contribuinte estadual, na definição apropriada).
  
Está lá na página oficial do clube para quem quiser ver. Quem mora a mais de 100 quilômetros do Rio de Janeiro (o site não deixa claro, mas presumo que seja a cidade) pode se tornar sócio pagando apenas R$ 40,00 por mês. Em troca, recebe uma carteira de sócio estadual, adquire o direito de frequentar o clube até 30 dias por ano, recebe publicações e informações sociais quando publicadas, participa de promoções e eventos quando forem promovidos. E, claro, a jóia da coroa: vota para Presidência e Conselhos, depois de cumprida a carência de 3 anos.
  
Há tempos eu vinha emitindo alguns alertas acerca da precariedade desses direitos de voto dos sócios Off-Rio, para os quais não há previsão estatutária, mas eu desisti de insistir no assunto. As reações dos meus interlocutores eram tão raivosas, tão fundamentalistas e tão enérgicas que eu me sentia tentando explicar a George Bush que talvez não houvesse armas químicas no Iraque. Desisti, cansei, deixa pra lá. Que fiquem todos confortáveis com suas crenças imutáveis.
  
Ou melhor, nem desisti tanto assim. Desisti de discutir, mas não de alimentar minhas dúvidas. Reuni o pacote de disposições do Estatuto Social do CRF que colocam em xeque a validade do sócio Off-Rio e encaminhei uma consulta oficial ao Conselho Deliberativo do clube, que a submeteu a uma comissão de juristas. Até agora desconheço o que dirá tal comissão, só torço para que digam que sim, que os Off-Rio possuem direito de voto. Isso trará paz para muitos.
   
O que me incomoda mais nessa temática do Off-Rio é que os defensores mais ardorosos de uma campanha associativa não são sócios dessa modalidade. São, quase sempre, sócios e torcedores cariocas, que olham para o Off-Rio como uma alternativa adaptada de um projeto de sócio torcedor.
   
O raciocínio é simples: ser sócio do Flamengo não é muito barato e para quem não mora nas imediações da Gávea frequentar o clube é algo fora de cogitação. Isso torna difícil convencer torcedores a pagar R$ 105,00 por mês para usufruir bem pouco da instalações. Entretanto, R$ 40,00 soa mais palatável, se encaixa melhor no orçamento dos torcedores, pois, afinal, esse é um valor aproximado do que cobram os programas de sócio torcedor comercializados por clubes rivais, como vimos no artigo anterior.
   
É daí que surge essa fixação - de gente bem intencionada, em sua maioria, faço essa ressalva – de concentrar os esforços de campanhas de associação em sócios de outros estados. É um modo bem brasileiro de lidar com as dificuldades: já que não há sócio torcedor à disposição, vamos aproveitar essa brecha do Off-Rio e aumentar o colégio eleitoral por essa via.

Não condeno quem o faça. Se a possibilidade existe, se as pessoas realmente acreditam que é aumentando o colégio eleitoral que se mudará o clube, que sigam em frente.

O que parece fora de questão é perguntar aos sócios de fora do Rio de Janeiro quais são, antes de mais nada, as suas reais necessidades. Eu mesmo, que morei a minha vida inteira no Rio antes de me mudar para Porto Alegre em 2007, não imaginava que a vida rubro-negra fosse tão difícil fora da Cidade Maravilhosa.

O torcedor Off-Rio, para começo de conversa, tem dificuldade de torcer. Sabe aquele domingão que tem um clássico Flamengo x Vasco pelo Carioca? Em Porto Alegre a TV mostra Grêmio x Ypiranga. Sabe o jogo de meio de semana pela Copa do Brasil contra o Horizonte? Em Curitiba o Sportv passa Atlético PR x Ipatinga. Sabe o jogo de estreia na fase de grupos da Libertadores que vai passar na Globo? Na Globo de Salvador vai passar Vitória x Itabuna.

Pensa que a vida melhora quando chega o Brasileirão? Engano seu. Quem mandou Flamengo x Palmeiras ser às 16h, mesmo horário de Portuguesa x Atlético MG? O flamenguista de Belo Horizonte vai ter que se contentar com o jogo do Galo.

Então, para quem mora fora do Rio, ou bem assina o PFC, ou ver o Flamengo passa a ser algo bissexto. Ou seja, lá se vão mais de R$ 60,00 por mês. E isso nem sempre resolve o problema....porque sabe aquele dia que a partida coincide com um compromisso qualquer e o torcedor carioca vai ouvindo o jogo no rádio do carro ou do celular? Pois é, quando isso acontece comigo, eu preciso me contentar com o jogo do Inter.

E até agora só falei de jogos pela TV. Porque quando se trata de jogos no estádio, aí mesmo é que o torcedor Off-Rio come o pão que o diabo amassou. Vou contar um caso real, relativamente recente.

Em 2010 o Flamengo jogou as Oitavas de Final da Libertadores no Pacaembu, contra o Corinthians. Sabem onde os sócios Off-Rio de São Paulo assistiram a partida? Em casa. Sim, os sócios Off-Rio foram obrigados a ficar em casa. Para facilitar o deslocamento dos torcedores cariocas, o Flamengo fez o favor de comprar antecipadamente toda a carga de ingressos visitantes e vendê-la na Gávea.

Esse episódio do jogo do Corinthians ilustra uma diferença marcante entre os sócios regulares e os sócios Off-Rio: o acesso privilegiado e antecipado à compra de ingressos. Sócio do Flamengo nunca fica de fora de jogo importante, nem passa aperto para comprar ingresso: basta ir na sede da Gávea e acessar a bilheteria exclusiva, que fica lá dentro do clube, ao lado da secretaria.

Além disso, lá na Gávea também vende toda a linha oficial de produtos do clube com descontos para os sócios. E quando há eventos, o sócio sempre é convidado a participar.

Digo essas coisas para evidenciar um aspecto que geralmente passa despercebido: mesmo para quem não frequenta a sede, o Flamengo oferece aos seus sócios cariocas alguns benefícios palpáveis e reais, em especial o mais relevante deles, que é a exclusividade na compra de ingressos.

Já para os Off-Rio, sejamos francos, a única coisa que o clube oferece em troca é um boleto de cobrança mensal. Nem a revistinha bimensal costuma chegar – desde 2009, só recebi 3.

E, sim, a chance de votar 3 anos depois de se associar. Desde que, claro, o sócio esteja disposto a faltar o trabalho e investir algumas centenas de reais no seu deslocamento até ao clube, pois não há votos on line ou por correspondência (e nem haverá enquanto não se mudar o estatuto, que expressamente prevê votação por envelopes nas urnas).

Portanto, a todos os que se enchem de esperanças de encontrarem hordas de sócios ávidos por doar R$ 480,00 por ano ao CRF apenas para figurarem na lista de eleitores em 2015, fica aqui meu conselho: não confundam o atual sócio Off-Rio com um projeto de sócio torcedor meio capenga. Ele é muito pior do que isso, é uma extorsão apelativa à paixão genuína da Nação.

Se realmente vocês estão empenhados em encontrar mais sócios a curto prazo, fixem-se na turma do Rio de Janeiro mesmo. Pelo menos para esses ainda se pode acenar com contrapartidas tangíveis. Nem que seja trocar a mensalidade do PFC pela do clube e assistir as partidas em um dos muitos bares que as transmitem. Porque, acreditem, até isso não é simples fora do Rio de Janeiro.


Walter Monteiro - Embaixador Oficial do Flamengo no Rio Grande do Sul, sócio-proprietário do clube (mesmo morando em Porto Alegre) e escreve a coluna Bissexta no Blog Ouro de Tolo.

PS: Para reler:
  1. O primeiro artigo da série: Sócio Torcedor, Mitos e Crenças
  2. O segundo artigo da série:  Ainda o sócio Torcedor, Seus Mitos e Suas Crenças

quarta-feira, 2 de maio de 2012

AINDA O SÓCIO TORCEDOR, SEUS MITOS E SUAS CRENÇAS - por Walter Monteiro

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!

Dando continuidade a série de reflexões sobre o Flamengo, o Walter Monteiro nos fala mais sobre os programas de sócio-torcedor, tendo como base os principais programas existentes no Brasil.

Caso queira reler o primeiro capítulo, basta clicar aqui.


FLAmém!

REFLEXÕES SOBRE O FLAMENGO 
PARTE 2
AINDA O SÓCIO TORCEDOR, SEUS MITOS E SUAS CRENÇAS.

No artigo anterior critiquei o movimento de alguns rubro-negros, que depositam todas as suas esperanças na criação de um projeto de sócio torcedor. O curioso é que apenas no Flamengo essa obsessão em atrair mais torcedores sob uma motivação exclusivamente política tem defensores tao ardorosos. Há uma série de programas adotados por nossos rivais e em nenhum dos que analisei a questão do voto tem importância. E alguns são muitíssimo bem sucedidos.

Eu não teria tempo e nem seria o caso de destrinchar, um a um, os programas de todos os clubes brasileiros, nem mesmo se restringisse a pesquisa aos clubes da Série A ou até mesmo aos chamados "12 grandes" (os 4 cariocas, os 4 paulistas, os 2 gaúchos e os 2 mineiros). Adotei um critério, um tanto quanto aleatório, mas com premissas claras.

Escolhi o Vasco, porque é o maior rival local do Flamengo; o Botafogo, porque dizem ser o clube carioca com a administração mais arejada; o São Paulo e o Inter, por serem referências nacionais de práticas de gestão elogiadas e o Corinthians, o clube que luta para roubar do Flamengo a liderança nacional em número de torcedores. É uma amostragem coerente e abrange 1/4 dos times da Série A e a metade dos clubes grandes (incluindo o Flamengo, de quem falarei depois).

A tabela a seguir detalha o que cada um desses clubes enfatiza serem os benefícios dos respectivos programas de sócio torcedor, segundo informa ao dos seus sites oficiais:



É preciso aclarar que a tabela acima faz uma aproximação muito resumida dos benefícios ofertados em cada programa. O Vasco, por exemplo, não oferece quase nada ao sócio torcedor propriamente dito, mas, em compensação, comercializa um plano chamado de "sócio geral" que custa apenas R$ 10,00 a mais e garante os benefícios que descrevi. Botafogo, São Paulo e Corinthians comercializam planos com preços diferenciados, com as versões mais caras contendo "mimos" mais sofisticados, como lugar personalizado no estádio, camisa autografada e vários outros badulaques.

0 mais importante, entretanto, é perceber que apenas Vasco e Inter garantem direito de voto ao sócio torcedor - o Corinthians chega a proibir taxativamente no seu estatuto social que essa categoria tenha direito de voto. 

Só que no Inter e principalmente no Vasco, o tal direito de voto é muito mais simbólico do que efetivo - ou, como se dizia antigamente, é para ingles ver. 

No Inter a eleição é, em principio, indireta. Há um Conselho Deliberativo, formado por membros natos (1/3) e membros eleitos (os 2/3 restantes). Quem quer ser presidente do clube precisa ter cumprido ao menos 1 mandato de conselheiro. E é o Conselho, em princípio, quem elege o Presidente. Se uma das chapas atingir um quórum qualificado (que é um número variável de votos de conselheiros, a depender da quantidade de chapas inscritas), a eleição acaba ali mesmo. Caso nenhuma chapa consiga atingir esse quórum, há um segundo turno entre as duas mais votadas. É só nessa segunda etapa que o sócio torcedor pode dar o ar de sua graça - antes, fica tudo ali entre os 450 conselheiros. 

No Vasco é ainda pior. A eleição é inteiramente indireta, sendo que o Conselho Deliberativo do clube é composto por metade de membros natos. Só a outra metade é eleita. 

Ou seja, o verdadeiro direito de voto que Inter e Vasco efetivamente concedem aos seus respectivos sócios torcedores é o direito de eleger apenas parte do Conselho Deliberativo (2/3 no caso gaúcho, metade no caso carioca), mas, no frigir dos ovos, quem dá as cartas mesmo são os ilustres conselheiros. 

Como se vê, a questão eleitoral NEM DE LONGE é relevante para o sucesso dos programas de sócio torcedor, sendo que na maioria dos casos ela sequer entra em pauta. São os benefícios oferecidos que realmente fazem a diferença. Ou, ainda melhor, é um beneficia central - acesso aos estádios com conforto, preço especial e algum diferencial em relação ao torcedor comum - que determina o sucesso de um programa de sócio torcedor. 

Essa é uma lição a ser aprendida pelas futuras gestões do Flamengo: não adianta lançar com pompa e circunstância projetos audaciosos (como o fracassado Cidadão Rubro-Negro, que guarda semelhanças óbvias com os programas clássicos de sócio torcedor, apenas com uma denominação diferente) se a questão dos ingressos e do acesso aos estádios não estiver no centro das preocupações. 

Ingressos, ingressos, ingressos. Essa é a chave do sucesso, o imã que atrai multidões de futuros associados. Quem percebeu isso, colheu êxito. Amor ao clube, desejo de participar politicamente ou benefícios não muito tangíveis simplesmente não funcionam.

* Por Walter Monteiro - Embaixador Oficial do Flamengo no Rio Grande do Sul, sócio-proprietário do clube (mesmo morando em Porto Alegre) e escreve a coluna Bissexta no Blog Ouro de Tolo.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

SÓCIO TORCEDOR, MITOS E CRENÇAS - por Walter Monteiro

Caríssimos irmãos de fé rubro-negra,
Salve, Salve, FLAleluia!

Por motivos particulares, precisei me afastar temporariamente do blog. No entanto, você, leitor, sairá ganhando neste período. Publicarei aqui, sempre às quartas-feiras, uma série de artigos de autoria do Walter Monteiro* sobre a questão societária do C.R.F. e os programas de incentivo ao torcedor em geral, aproveitando este recesso forçado do futebol rubro-negro.
São artigos normalmente longos, para tratar o tema com a profundidade necessária e com o objetivo de evitar o lugar-comum. Trata-se de um material de altíssimo nível para reflexão e debate sobre o Flamengo. Concordando ou discordando das ideias do autor, tenho certeza de que você gostará da contribuição.
Segue o primeiro, que corresponde a um convite para discussão sobre o papel de um programa de sócio torcedor.
FLAmém!


REFLEXÕES SOBRE O FLAMENGO
PARTE 1
SÓCIO TORCEDOR, MITOS E CRENÇAS.




Com esse artigo, inicio uma pequena série de reflexões sobre o futuro do Flamengo. Normalmente os debates acerca da gestão do clube são poluídos por uma atmosfera eleitoral muito intensa, onde sobram críticas para a administração do momento e promessas de um mundo melhor para o mandato seguinte - tem sido assim há, digamos, uns 20 anos. E quase sempre quem se dispõe a propor algo está, direta ou indiretamente, comprometido com alguma corrente política do clube, está a serviço desta ou daquela candidatura.

Eu mesmo, na última eleição, escrevi um documento pomposo e pretensioso, mas inteiramente influenciado pelo meu apoio à Patricia Amorim. Dessa vez, porém, nem pretendo repetir meu apoio à Patricia, nem me empolgo com as pré-candidaturas de oposição já em movimentação. Essa certa neutralidade me dá a impressão de que posso refletir com um tantinho a mais de isenção sobre o cotidiano da Gávea e estimular que outros rubro-negros enriqueçam o debate. Abro a série com um tema que está na ordem do dia de todos os que pensam o futuro do clube: a criação de um programa de sócio torcedor.

Não conheço ninguém que seja contra a criação de um programa de sócio torcedor, mas nove entre dez flamenguistas que o defendem publicamente miram, sobretudo, a possibilidade de renovar o colégio eleitoral do clube, dando à torcida o direito de participar ativamente da vida política do CRF.

O Flamengo, todos concordamos, tem muitos e muitos problemas, mas um deles, acreditem, não é falta de democracia. Pelo contrário, o clube é um dos mais democráticos do país, porque não há qualquer restrição em se associar (afora, claro, a questão econômica, porque não é tão barato) e nem há tantos embaraços a que um interessado possa se candidatar à presidência, sem contar que todos os sócios proprietários (há mais de 5 mil) podem participar do Conselho Deliberativo, se o desejarem.

Portanto, não é democracia que falta no Flamengo, há até quem diga (equivocadamente) que há democracia em excesso.

Apesar disso, cresce a percepção de que a solução mágica para os nossos problemas (muitos problemas, não me canso de insistir) viria de uma associação em massa de um contingente de rubro-negros, todos ávidos por se associarem ao clube tão logo isso seja possível.

Lamento decepcionar essa linha wishful thinking, mas conceder direito de voto a uma nova modalidade de sócios, além de não ser tão simples, não mudaria praticamente nada no cenário político da Gávea.

Eu disse antes que quase não há embaraços para quem quer se candidatar à presidência do CRF, mas isso não significa que não haja alguns requisitos. Há dois, basicamente: ter mais de 35 anos e ser sócio proprietário há mais de 5 anos. Requisitos bem simples de serem atingidos nas condições atuais (ainda devem existir uns 3 mil títulos de sócio proprietário à venda). Estimo que haja uns 3 ou 4 mil flamenguistas aptos a se candidatarem.

Ou seja, ainda que se concedesse direito de voto aos futuros “sócios-torcedores”, eles precisariam escolher entre os mesmos candidatos de hoje em dia.

O que muda, então?

Muda que os candidatos de hoje, que fazem uma campanha para um colégio eleitoral menor, precisariam competir em um cenário muito maior. Isso tornaria a campanha eleitoral mais cara, menos acessível a quem não é milionário, mais dependente de apoios de empresários e caciques políticos, mais difícil a quem não tem articulações internas sólidas.

Em que medida isso realmente pode contribuir para uma renovação no clube?

Um detalhe que costuma passar despercebido por todos que sonham com uma mudança de rumos no clube é que o comparecimento às urnas dos sócios atuais é muito baixo, inferior a 40% do colégio eleitoral.

Quase ninguém é sócio do Flamengo para jogar tênis ou frequentar a piscina, porque para isso há opções melhores e mais em conta. Quem mantém vínculos com o clube em geral o faz por ser visceralmente ligado ao futebol. E por que ainda assim essa gente toda silencia na hora do “vamos ver”?

Uma provável resposta é que as candidaturas não empolgam e que o modo como se dá a política rubro-negra, com um rodízio entre facções internas, não estimula a quem está de fora desse círculo vicioso a participar um pouco mais. Olhar a situação e a oposição, uma falando mal da outra, é como ver um filme repetido na Sessão da Tarde, um eterno retorno, uma desesperança sem fim.

Portanto, parece muito mais simples, econômico e eficaz, ao invés de lutar por uma ilusória adesão em massa de torcedores que hoje não são sócios, somar esforços para identificar, dentre os mais de 60% de sócios ausentes, pessoas íntegras, de boa formação e desejo genuíno de colaborar, que possam, a curto prazo, representar uma mudança efetiva.
Isso não significa, claro, que se deva ser contra a um projeto de sócio torcedor. Como disse, não conheço ninguém que o seja. Só que é preciso ter em mente o que, de fato, representa um projeto desta natureza.

Para o clube, a resposta é óbvia: aumento de receita fixa. Mas não apenas isso. O sócio torcedor fornece uma base de consumidores muito útil para iniciativas mais arrojadas, como marketing one to one,  licenciamento de produtos específicos e muito mais. Em resumo, sócio torcedor, quando bem trabalhado, é uma receita adicional para o clube que, a longo prazo, pode ser até mais relevante do que, por exemplo, a venda de patrocínio nos uniformes.
E para o torcedor? A experiência mostra que o propulsor da associação é a facilidade (ou até a exclusividade) na interação com o clube, especialmente na compra de ingressos e descontos em itens oficiais e licenciados. Ninguém se associa sem receber nada em troca, por mais paixão que alimente pelo clube. É preciso que o público alvo seja induzido a participar mediante uma real percepção de que algo lhe é oferecido instantaneamente em troca de sua mensalidade.

Por último, mas não menos importante, para aqueles que ainda sonham que o Flamengo possa, em um futuro próximo ou mesmo longínquo, introduzir um programa de sócio torcedor com direito de voto direto e universal, não custa lembrar que essa medida teria que ser prevista em uma alteração dos atuais estatutos do clube, a ser aprovada pelo atual Conselho Deliberativo.

Em outras palavras, é preciso convencer os atuais sócios proprietários, que pagaram relativamente caro para ter direito de voto, a compartilhá-lo com milhares de pessoas que pagariam, pelo mesmo direito, algo como 10 vezes menos. Convenhamos, não parece uma tarefa fácil. Em política, o melhor que a gente pode fazer é lutar pelo aquilo que é possível realizar, ao invés de alimentar ilusões sobre um mundo melhor, mas claramente utópico.

Uma mudança, a curto prazo, é possível e até mesmo provável, desde que se aprenda a lutar com as armas certas, o entendimento correto. Mas estou convencido de que essa mudança nem de longe passa por inchar o colégio eleitoral – ao contrário, me parece até que seria uma decisão equivocada insistir nisso.

No próximo artigo, vou comentar alguns projetos de sócio torcedor bem sucedidos em clubes brasileiros. Nenhum deles, posso adiantar, concedeu real direito de voto aos envolvidos.

* Por Walter Monteiro - Embaixador Oficial do Flamengo no Rio Grande do Sul, sócio-proprietário do clube (mesmo morando em Porto Alegre) e escreve a coluna Bissexta no Blog Ouro de Tolo.